4.7.06

Futebol e Política

Acabou. Depois de um jogo lamentável contra a seleção francesa, os canarinhos se despedem da Alemanha com um sentimento da frustração do favoritismo, deixando muita gente indignada com a atuação dos nossos astros e principalmente com a gestão do nosso técnico. Pronto, final de copa, agora é a hora de nos concentrarmos no que realmente importa e no que poderá mudar diretamente o nosso país e as nossas vidas: nas eleições de outubro.

Antes de entrar nesse assunto tão delicado, queria fazer uma pausa com o querido leitor e propor-lhe uma reflexão rápida. Será que se o brasileiro se preocupasse com a política da mesma forma que se preocupa com o futebol, o Brasil não seria um país melhor? É engraçado ver a seleção brasileira sair da Alemanha sob os gritos de "time sem vergonha" além do seu técnico ser chamado repetitivamente de burro por não ter feito essa ou aquela alteração e olhar para a gestão do país e dos seus 27 estados notando que muitas alterações deixaram de ser feitas ou são feitas de forma extremamente equivocadas. Sendo que nesses casos, poucas pessoas se mobilizam para chamar-lhes de burro ou acusar a equipe da gestão de sem vergonha, por mais sem vergonha que seja. É interessante isso, porque prova que o brasileiro não é acomodado, mas sim mal educado politicamente.

Bem, mas voltando a política, queria observar que estamos num momento chave para o futuro do nosso país. Temos de um lado um candidato que representa da forma mais pura e conceitual o ideal do neoliberalismo e da abertura de mercado, de outro temos um candidato que vem adotando uma postura, a meu ver, bem social-democrata, sem se fixar muito nos delírios da direita e nem na utopia da esquerda. Temos também um candidato de postura mais radical, esquerdista, que prevê mudanças sérias nas políticas sociais do país. O que for eleito, iniciará uma política que irá precisar de certa continuidade para poder dar certo, além, é claro, de um apoio popular que garanta um congresso harmônico com a ideologia política adotada.

A prática neoliberal não faz o meu gosto. Privatizações e a formação de um Estado mínimo, para o Brasil, não seria a melhor opção. Temos uma desigualdade social em proporções gigantescas e as privatizações, sobretudo nas áreas de educação e saúde, teriam um péssimo resultado, porque excluiria as camadas mais populares desses direitos. Além disso, a prática neoliberal favorece os empresários, principalmente os estrangeiros, no sentido em que prega uma diminuição dos direitos dos trabalhadores e cria o chamado "exército de reserva" inviabilizando uma melhoria salarial nos empregos que necessitam de menor especialização, e também no sentido de que favorece as grandes empresas pelo fato de não haver uma regulamentação estatal que force uma competição mais justa entre o produto de uma multinacional e o de uma pequena empresa nacional, ocasionando uma oligopolarização em alguns setores e o conseqüente aumento de preços.

A esquerda radical também não me é uma opção viável. Instituir o socialismo, ou tentar instituí-lo, no atual contexto seria um suicídio. Primeiro porque a palavra "socialismo" soa como uma blasfêmia para os investidores internacionais. E a partir do momento em que um país estatiza seus meios de produção e forma um estado socialista, no mundo globalizado em que vivemos, o Estado perde muito em dinheiro e sofre, infelizmente, sanções econômicas que não permitirão o crescimento do regime gerando apenas uma pobreza socializada. Não sou contra o socialismo, mas não acho que o contexto mundial favorece esse tipo de regime.

Desses todos, só me resta o social-democrata, que é o regime atual. Um governo que não deixe de lado sua veia capitalista, mas que não se venda e não se esqueça do social. Querendo ou não, no governo atual houve avanços significativos nas áreas educação e do bem estar social, além da criação de empregos, do crescimento econômico e do superávit primário, mas ainda falta muito coisa para se chegar num ponto satisfatório. Espero, portanto, que o povo fique atento e que ao menor deslize faça que nem se faz com a seleção brasileira. Vá as ruas e exija respeito e vergonha na cara dos seus gestores e parlamentares.