16.6.09

O Palhaço

Senti vontade de escrever em cada espaço em branco daquela parede. Deixar, ali, uma marca daquela profussão de sentimentos.

O palhaço ainda com a maquiagem, chora seus terremotos internos.

Nas paredes estaria escrita a gloriosa história dele, que morreu afogado em suas lágrimas, até encontrar a outra parte da sua solidão.

A água consome o palhaço e faz dele um espetáculo tragicômico.

A história seria cíclica, sem fim. Mesmo sem acreditar na eternidade, aquele era um momento em que ele queria a eternidade.

Em um suspiro, o palhaço encontra o pássaro. Ele então agarra-se ao pássaro e experimenta uma lufada de liberdade.

À esse momento, o vinho já lhe descia mal, quando imaginou as belas declarações que ele gostaria de escrever.

O tragicômico passou, mas o palhaço ainda mantinha os seus medos. Não confiava.

A tontura chegou, procurou uma caneta próxima. Ele precisava falar aquilo.

O palhaço calou-se

31.5.09

Com aquele seu jeito sutil e calmo, pegou sua bolsa branca, olhou-me, tocou meus lábios com sua boca e disse:

- Tenho que ir. Amanhã nos vemos.

E a conjunção dessas simples palavras, vendo-a e observando-a na beleza dos seus cachos pretos me fez perceber o quanto eu gosto dela. Tive a certeza, quando ela olhou nos meus olhos e ameaçava sair sorrateira, o quanto eu desejava-a perto de mim. Não disfarcei meu desejo de estar com ela, na minha face. Mesmo assim, menti.

- Tudo bem.

- Mesmo? Não vá ficar pensando coisas ruins.

Sorri e percebi que minha expressão de desalento e tristeza quando ela anunciou que iria embora foi mais forte e marcante do que imaginei. Falei que não havia problemas, mesmo que internamente eu sentia um desejo assustador de ficar com ela por, pelo menos, algumas horas a mais. Mas tinha que respeitar a sua liberdade e o seu desejo de ir.

Ela foi.

22.5.09

Cecília

Cecília foi embora e me deixou apenas a enfermidade. Tísico. Ela arrumou as malas. Deixou-me com um abraço e uma promessa de volta. Indeterminada. Reagi com pasmidão e o choro me consumiu tão lego não percebi mas seu perfume no apartamento. As toses então não tardariam a começar.

Ela me deixou sozinho com um sentimento do tamanho do mundo para administrar. Foi em busca da sua vida, da sua liberdade, de outros amores. Mesmo sob os meus protestos, nem meus olhos cheios de lágrimas a fizeram mudar de idéia. Cruel, ela estava decidida a partir, a me deixar. Eu não pude fazer nada.

Não quis olhar o arrumar das suas malas, seu cabelo molhado da despedida, nem seus olhos lacrimejantes. Relutei para perceber um pouco de hesitação na sua despedida, tentei aceitar tudo me guiando por uma razão incompreensível.

- Eu te entendo - Quis dizer.

O sentimento foi mais forte e agora meus pulmões expelem sangue ao lembrar-me da despedida de Cecília para um longe desconhecido. Não deixou cartas, só um beijo na minha nuca dado com um estalo e pouca saliva, um caderno e essas malditas tosses. Recentemente tenho descoberto vultos da sua presença no meu apartamento. Ela ainda me assombra.

Ela me deixou imerso a uma onda de sentimentos furiosos sem salva-vidas e a única coisa que podia fazer era chorar na frente da minha imagem, desgastada e velha. O amor envelhece. Escrevi cartas que não mandei. Chorei lágrimas que não ouso admitir. Não durmi. E meu maldito pulmão passou a expelir sangue, assim, logo depois que ela se foi.

17.5.09

Ontem

Vou preparar chá de limão porque você não gosta de café. Colocar o vídeo para funcionar e procurar algum filme bom para vermos juntos. Vou cozinhar aquele ensopado que você comeu e disse que estava maravilhoso e não vou assistir ao jogo hoje, porque sei o quanto isso te chateia. E quando você chegar, vou te falar das amenidades da minha vida e tentarei fazer você rir. Vou perguntar como foi a viagem e se você teve cuidado porque o ar daquela cidade não é muito bom e eu não quero ver você com nenhuma enfermidade. Vou perguntar se você se divertiu e das suas aventuras no estrangeiro e vou torcer para que sim, porque a sua felicidade é a minha felicidade.

Vou comprar um vinho para tomarmos juntos e vou ficar do seu lado, espantado com o seu doce sorriso e o jeito que você enrola os seus cachos pretos com seu dedo da mão esquerda e procura sempre a melhor palavra para me falar. E vou ouvir você falar com um sorriso no rosto e uma paz na minha alma. E vou querer ver em que você mudou e procurarei isso no seu comportamento e nos seus detalhes e vou imaginar um pedido de casamento ali, por minha parte, porque novamente terei certeza que gosto de você mais do que tudo e que poderia morrer ali, engasgado em suspiros poéticos e sentimentos doces.

E aí, quando o vinho subir à cabeça e minha língua ficar mais solta, vou falar do sentimento imensamente lindo que sinto por você e da minha vontade de estar com você, meu doce dragão. Vou quebrar todas as regras e tentar te dizer as palavras mais bonitas que você me inspira e vou arriscar tudo, porque ser só teu amigo me machucaria mais do que me faria bem. E vou hesitar e minhas pernas irão tremer ao esperar, dos seus olhos, dos seus lábios, uma resposta para aquela rídicula e sincera tempestade sentimental.

15.5.09

Espera

Descobri a certeza em meio a uma fúria incerta.
Espero você no meu salão arrumado, com flores à mão
e sentimentos à pele.

Descobri a garganta engasgada, o coração apertado
as pernas trêmulas e revi os medos pueris.

E aí me vi como começamos, de cabeça virada para o céu
conversando sobre amenidades e esperando a coragem chegar.

Engasguei com as minhas palavras e adicionei uma confissão
a lista de coisas inconfessáveis que já te falei.

- Não me peça para ficar longe de você. Não assim.

E vi no seu semblante a dúvida, sua cabeça pesada. Achei que,
por não ver mais seus olhos tristes e encontrar nos seus lábios
um sorriso doce, talvez aquilo fosse um bom presságio.

E tratei de dar mais uma varridinha no salão e arrumar mais uns quadros
para que, por via das dúvidas, se você decidisse ficar que aquilo lhe fosse ainda mais agradável.

- Não conte em segundos, conte em dias.

E sem querer você me condenou a suspiros poéticos, a espera interminável e a procurar formas de expressar aquilo que sinto, ainda que de forma velada, para não pressionar você.

Por mais que eu tente, você se materializa nos meus sonhos e me vejo deitado com você, olhando as estrelas, assim como começamos - e falando amenindades até a coragem chegar.

A espera me dói como uma faca enfiada no meu coração e o sangue escorrendo pelo meu corpo.

13.5.09

Salão

Tirei o pó de baixo do tapete. Lustrei os móveis de mogno, matei as baratas e coloquei veneno para que elas não mais fustigassem o salão. Limpei cuidadosamente as janelas, como se eu estivesse limpando a mim mesmo. Deixei o abajour brilhando e com um cheiro bom, porque talvez você não gostasse daquele meu abojour cinza ou do cheiro que ele exalava. Arrumei as camas e coloquei nelas os lençóis de linho, para que você se sentisse confortável e com um pouquinho de luxo. Coloquei o que estava fora de ordem no lugar, com atenção especial aos quadros, porque sei que a arte inspira você e deixaria o ambiente mais bonito. Troquei os sofás de lugar, porque uma mudança sempre faz bem para a alma. Tapei os furos do tapete com um velho tecido de minha mãe. Arrumei tudo, porque não queria que você encontrasse o mínimo defeito naquilo que te oferecia e porque temia que não quissesse vir se mudar para cá. Enchi-me de sorrisos para te receber e até um vinho chileno comprei para que você o tomasse, quando quisesse matar a sede. Aluguei filmes, para o caso da minha companhia ser demasiada extenuante para você e comprei livros com histórias extraordinárias para quando você quisesse estar consigo mesma. Vesti-me com minhas melhores roupas. Um terno de linho francês, com uma gravata borboleta. Pentiei-me como jamais tivera feito e coloquei um velho perfume de gardênias para que meu cheiro fosse aprazível. Espalhei incensos pelo salão, porque talvez você quisesse um cheiro diferente e coloquei um relógio, no centro, para que eu pudesse subtrair os segundos que ficava sem você.

E agora estou aqui, nesse imenso salão recheado de quadros e de janelas limpas. Sozinho e chorando como uma criança.

1.5.09

Infecção generalizada
Começou nos olhos
Chegou na boca
Não contente, dominou a cabeça
Desceu pela garganta
E chegou nas mãos
Nos pés
Para, no final
dar seu golpe de misericórdia
e atingir o coração.

Morreu de repente.

26.4.09

Um

É como se tudo parasse e os medos dos erros anteriores assustassem Santiago. Sua mente foi capaz de num instante enumerar cada pequena falha que cometeu com tantas outras que passaram na sua vida. Mas ela tinha um quê de importância, um ar que transmitia algo além, místico.

Santiago não era muito de acreditar nos misticismos cotidianos. E não acreditava. Racional, colocava o pingo nos is e partia então para um segundo insight, ainda na presença dela, mas sem que ela percebesse no que ele estava pensando enquanto bebia vinho deitado sob a grama e ouvia o chuá do mar.

É como se o amor viciasse. Talvez não o amor em si, mas a sensação particular que o sentimento despertava nele. Um andar cego de mãos dadas, unido com a frieza e a eterna iminência da queda, do fim. Nada nessa vida é para sempre, Santiago sabia disso. Mas o sentimento era tão forte, foi tão forte, que ele precisava sentí-lo novamente.

Mas um sentimento assim não brota do nada, há de precisar de uma série de motivações e misticismos - filosofava Santiago enquanto ela, deitada ao seu lado bebericava mais um gole de vinho e lhe contava histórias da vida. O misticismo disso tudo mora no cérebro que, por algum motivo qualquer, ou sem nenhum motivo, faz com que a voz se torne falha, o coração se torne veloz e a surja um frio específico na barriga enquanto as mãos, coitadas, soam.

Não. Santiago se recusava a acreditar que o instrumento máximo da nossa racionalidade pudesse agir de forma tão pueril. Não com ele. E aí pode perceber as características dela que mais o atraíam. Santiago queria encontrar uma lógica na aparente falta de lógica do seu sentimento. Não quero cometer os mesmos erros porque a personalidade dela bate inteiramente com a minha e sei que posso amá-la, pensou.

Mas seu cerébro não lhe dava descanso e construiu na sua cabeça a imagem de outras que ele julgava tão parecidas, de uma personalidade que ele tanto apreciava, mas mesmo assim ele não teve medo de que, com elas, repetisse o mesmo erro. E aliás repetiu, mostrou-lhe racional seu cérebro. Então, por que não quero cometer os mesmos erros com ela?

Enquanto pensava nisso, ela se virou para ele. "Fazia tempo que eu não via as estrelas". Santiago simplesmente sentiu seus lábios se tocando, o copo dela escorrendo pelo dele, seus pés se entrelaçando juntos e ambos se movimentado com uma sintonia harmoniosa, enquanto o topor do vinho esquentava seus corpos, agora unidos. Uno. E o pensamento de Santiago terminou inconclusivo. Mas com um novo insight.

O amor nos torna um.

6.4.09

Sono

Eu queria escrever uma poesia nas costas dela, naquele pedaço de pele nu de um moreno brilhante que roubava a minha atenção enquanto ela, relaxada, dormia. Fiz uma breve inserção no meu léxico e procurei uma caneta para executar meu desejo. Senti imediatamente que dos poros dela brotaríam as letras do meu poema, como as rosas brotam tímidas e belas numa dia de primavera com suas gotas de água da chuva. Senti que, magicamente, a caneta que eu poria agora lentamente nas suas costas ganharia vida e escreveria ali os versos mais bonitos da minha vida. Vi que o contraste do azul da tinta com o moreno das suas costas nuas faria uma estética tão perfeita que eu não mais estaria presente na frente de uma mulher; mas sim de uma obra de arte. Tolo: ela não precisava daquela tinta nem muito menos dos meus versos para ser uma obra de arte. O conjunto dos seus pequenos olhos negros, do seu sorriso tímido que formavam pequenas circunferências em volta da sua boca avermelhada, com seus cabelos ondulados e o seu corpo - na sua totalidade - ultrapassavam o limite da arte. Era uma divindade encarnada, ali para ser apenas apreciada por mim, a inspirar versos capengas. Sensato, joguei minha caneta fora, tomei mais um gole de vinho e me acomodei ao lado dela para experimentar o sono com uma Deusa.