29.5.06

Cleptomaníaca de corações

Eu estava na sua mira havia já 2 anos. Apareceu-me, pela primeira vez, numa festa. E me foi logo apresentada pelos nossos amigos em comum. Confesso que, à primeira vista, a sua beleza física me atraiu, mas nada tão forte que me fizesse correr atrás dela, ou trocar a eternidade ou coisas assim para te-la. Fui indiferente à situação. Em meio a conversa fui surpreendido. Ela sabia muita coisa da minha vida para uma, até então, desconhecida. Justificou-me pelo acesso a internet e dizendo que a internet no tira privacidade e, algumas vezes até os segredos. Eu, como usuário assíduo da grande rede, engoli tal justificativa e continuei a nossa prosa.

Não sabia eu, talvez pela ingenuidade que ela aparentava através daqueles olhos cor de amêndoas, que seus objetivos eram outros. Mais sombrios, eu diria. E talvez esse tenha sido o meu azar, ser escolhido para o cumprimento de tais metas. Com seu jeito sutil, sua inteligência e sagacidade, ela me transformou num alvo fácil. Num coelho sozinho à espreita de um leão faminto. Ia lá eu, conversando e imaginando a minha noite com ela. Como sempre "me garanti" nessas situações, não achei que ela pudesse me oferecer risco, afinal eu sou um jogador nato e conhecia todas as regras e armadilhas daquele jogo de sedução. Mas ela foi mais sagaz. Levou-me através da sua lábia, da sua boca carnuda e daqueles olhos amendoados para o bote.

Foi rápido, simples e certeiro. Num movimento veloz e preciso, como os dos atiradores profissionais, roubou-me o que eu tinha de mais importante, o que nunca antes fora roubado e o que eu imaginei que nunca iriam roubar. Roubou-me o coração. Num beijo ardente que me fez visitar o céu e acreditar em amor por uns instantes. Senti-me paralisado diante daquilo tudo, perdi toda a noção e todo senso de orientação. Fomos ao motel mais próximo e sem titubear, gastei meu dinheiro, meu fogo e minha paixão naquela noite, com direito a uma conversa sobre nossos possíveis filhos e a nossa futura casa, ao amanhecer.

Telefonei ao entardecer do outro dia, com esperanças de que novamente, gozaríamos de uma noite maravilhosa. Ninguém atendeu. E foi assim por cinco dias seguidos, até que ao final do sexto dia a encontrei naquele mesmo bar, conversando com um outro homem e roubando mais um coração para a sua coleção porque, afinal, o meu já era dela.