29.3.06

Ela

Deitada em seu leito, chorava um choro baixinho de dor e de desprezo por si mesma. Mais um homem havia se aproveitado do seu corpo, havia invadido sua pureza, deturpado a sua inválida moral em troca de alguns míseros trocados. Era, o que os mais ousados chamavam, uma puta. Ainda em seu leito, pensou pela centésima vez em suicidio. Talvez ali estivesse a paz de espirito tão procurada e sonhada por essa bela jovem de cachos loiros e olhos azuis.

A natureza fora generosa com essa mulher. Deu-lhe de presente o formato de um corpo que dava inveja as outras mulheres, sem falar no belo rosto angelical, recoberto por cachos de um loiro ensolarado e iluminados por um par de olhos que se olharmos bem, poderiamos até mesmo confundir com a cor do céu. O destino, entretanto, parecia não gostar muito dela. Havia lhe dado uma familia instável, marcada por um pai alcoolatra e uma mãe violenta, além de outros 6 irmãos e uma situação de vida nada favorável.

Começou com seus trabalhos aos 14 anos. Levada pelo pai alcoolatra à uma velha cafetina amiga do seu próprio pai, tinha o dever de renunciar da sua pureza angelical afim de colocar comida nos pratos das crianças. Sua primeira relação fora horrivel. Fora violentada por um brutamontes bêbado e imundo. Chegou em casa com as marcas deixadas por aquele homem. Olho roxo, cabelo despenteado e hematomas por toda parte do corpo. Trazia consigo a sua inocência perdida e algum misero dinheiro que dera ao seu pai.

Hoje, fazia 4 anos que trabalhava para a velha cafetina. Seu pai e 3 dos seus irmãos haviam morrido. Em casa só tinha uma mãe dura e fria, pois seus outros 3 irmãos foram vendidos, após a morte de seu pai, a um velho senhor branquelo que dizia vir de outro país. Para poder comer e ter um minimo de dignidade ela vivia disso. De dar prazer a homens.

Ele, então, entrou no seu quarto. Não parecia ser um homem muito velho, tinha lá seus 30 anos, estava bem vestido e diferente dos demais, não fedia. Notando o choro da mulher que o esperava na cama, fez a menção de sair do quarto, mas ela não permitiu. Levantou-se, nua, e se utilizando da experiência de 4 anos de bordel, iniciou o processo de sedução. Ele parecia estar indiferente a tudo isso. Não fazia expressão nenhuma, não se agarrava nela, não fazia como os outros homens faziam. Estava apenas ali, parado, atônito com aquilo tudo.

Ela, querendo que o ato se consumasse logo, baixou-lhe as calças e tratou de acariciar e, depois, lamber seu membro exposto. Ele colocou as suas calças, se abaixou e levantou a pobre mulher nua que estava na sua frente. Olhou nos seus olhos, pegou a sua roupa que estava jogada e levou ao banheiro. Lá, deu banho naquela mulher. Lavou-lhe os seios, o busto, o ventre, as suas costas com um sabonete que estava ali. Purificou-lhe também os cabelos, a barriga, as pernas e os pés. Secou-lhe o corpo e vestiu aquela pobre roupa que estava, anteriormente, jogada no banheiro.

Saiu do banheiro, e deitou-se com ela. Nem sequer a tocou. Apagou as luzes e começou a cantar uma canção bela e triste. Ela durmiu nos seus braços.

De manhã, ele não estava lá. Ela viu apenas o dinheiro referente à noite com ela.

Desse dia em diante, ela voltou a acreditar no amor.