31.12.05

Ela

Deu a última tragada naquele cigarro, o último gole no seu uísque, desligou o bolero que estava ecoando pelo sua sala e foi se deitar gozando do torpor provocado por ambas as drogas, misturadas.

Ao chegar na cama, viu o retrado dela. Aquele retrato que guardara com tanto carinho e colocara no criado mudo ao lado de sua cama, dizendo à empregada, sua única compania, que era o retrato de sua irmã. Retrato que tinha conseguido à custa de muito trabalho e de sua excepcional habilidade fotográfica. Estava bela naquela foto. Linda, seus olhos azuis tão intensos que jamais vira igual, sua pele branca e seu cabelo levemente loiro, olhando para frente, possivelmente para alguém muito querido que vinha ao seu encontro, sem saber, porém, que estava sendo fotografada pelo seu observador anônimo.

Conhecia tudo da vida dela, apesar de nunca lhe ter dirigido a palavra. Seu contato mais íntimo havia sido uma breve troca de olhar. Estava indo à casa de um amigo, quando a viu passar, linda. Seus olhos fugiram do seu controle e ficaram lá, a contemplar aquela beleza, aquele jeito de andar, aquele sorriso. Ela o olhou também, nos olhos. E por um segundo, pensou que ia beijá-la. Mas passou por ela, sem olhar para trás. Desse dia em diante, passou a pesquisar a vida dela.

Sabia onde ela trabalhava e estava sempre lá, observando-a a sair do trabalho e indo entrar, solitária, no seu carro a caminho de casa. Ela morava apenas a dois quarteirões de sua casa, e ele a seguia até lá, protegendo-a com os olhos, admirando-a com sua mente. Não, não havia espaço para desejos sexuais. Ele queria apenas ela e seu sorriso ao seu lado. Isso o faria, talvez, o homem mais feliz do mundo.

Era solteira, assim como ele, mas não parecia solitária. Ela tinha amigos que a visitavam frequentemente, ele apenas seu litro de uísque, sua caixa de cigarros e seu computador. A família o visitava uma vez por ano, moravam longe e não podiam estar fazendo visitas frequentes a ele. Mas era acustumado a essa situação, apesar de, às vezes, chorar sua solidão no quarto.

Poesias que dedicadas a ela, eram inúmeras. Porres tomados pela falta dela, incontáveis. Lágrimas choradas por ela, muitas. Mas a coragem para conversar com ela, sempre lhe faltara. Isso o que era mais angustiante nessa vida. Sempre tivera facilidades com mulheres, inclusive para suprir os seus desejos sexuais. Mas com ela, tudo isso lhe faltara. Não conseguia conversar com ela e se portar da forma que sempre se portava com as outras mulheres, só conseguia observa-la.

Ao se deitar, fechou os olhos e sentiu mais uma vez aquela tontura. Ao lado, deixou um bilhete para familia, explicando o porquê daquilo. Mandou uma carta para ela, se declarando e dizendo que estava fazendo aqulio tudo por ela. Não acordou.

ps. Odeio matar meus personagens ;/