13.5.09

Salão

Tirei o pó de baixo do tapete. Lustrei os móveis de mogno, matei as baratas e coloquei veneno para que elas não mais fustigassem o salão. Limpei cuidadosamente as janelas, como se eu estivesse limpando a mim mesmo. Deixei o abajour brilhando e com um cheiro bom, porque talvez você não gostasse daquele meu abojour cinza ou do cheiro que ele exalava. Arrumei as camas e coloquei nelas os lençóis de linho, para que você se sentisse confortável e com um pouquinho de luxo. Coloquei o que estava fora de ordem no lugar, com atenção especial aos quadros, porque sei que a arte inspira você e deixaria o ambiente mais bonito. Troquei os sofás de lugar, porque uma mudança sempre faz bem para a alma. Tapei os furos do tapete com um velho tecido de minha mãe. Arrumei tudo, porque não queria que você encontrasse o mínimo defeito naquilo que te oferecia e porque temia que não quissesse vir se mudar para cá. Enchi-me de sorrisos para te receber e até um vinho chileno comprei para que você o tomasse, quando quisesse matar a sede. Aluguei filmes, para o caso da minha companhia ser demasiada extenuante para você e comprei livros com histórias extraordinárias para quando você quisesse estar consigo mesma. Vesti-me com minhas melhores roupas. Um terno de linho francês, com uma gravata borboleta. Pentiei-me como jamais tivera feito e coloquei um velho perfume de gardênias para que meu cheiro fosse aprazível. Espalhei incensos pelo salão, porque talvez você quisesse um cheiro diferente e coloquei um relógio, no centro, para que eu pudesse subtrair os segundos que ficava sem você.

E agora estou aqui, nesse imenso salão recheado de quadros e de janelas limpas. Sozinho e chorando como uma criança.