22.5.09

Cecília

Cecília foi embora e me deixou apenas a enfermidade. Tísico. Ela arrumou as malas. Deixou-me com um abraço e uma promessa de volta. Indeterminada. Reagi com pasmidão e o choro me consumiu tão lego não percebi mas seu perfume no apartamento. As toses então não tardariam a começar.

Ela me deixou sozinho com um sentimento do tamanho do mundo para administrar. Foi em busca da sua vida, da sua liberdade, de outros amores. Mesmo sob os meus protestos, nem meus olhos cheios de lágrimas a fizeram mudar de idéia. Cruel, ela estava decidida a partir, a me deixar. Eu não pude fazer nada.

Não quis olhar o arrumar das suas malas, seu cabelo molhado da despedida, nem seus olhos lacrimejantes. Relutei para perceber um pouco de hesitação na sua despedida, tentei aceitar tudo me guiando por uma razão incompreensível.

- Eu te entendo - Quis dizer.

O sentimento foi mais forte e agora meus pulmões expelem sangue ao lembrar-me da despedida de Cecília para um longe desconhecido. Não deixou cartas, só um beijo na minha nuca dado com um estalo e pouca saliva, um caderno e essas malditas tosses. Recentemente tenho descoberto vultos da sua presença no meu apartamento. Ela ainda me assombra.

Ela me deixou imerso a uma onda de sentimentos furiosos sem salva-vidas e a única coisa que podia fazer era chorar na frente da minha imagem, desgastada e velha. O amor envelhece. Escrevi cartas que não mandei. Chorei lágrimas que não ouso admitir. Não durmi. E meu maldito pulmão passou a expelir sangue, assim, logo depois que ela se foi.