6.4.09

Sono

Eu queria escrever uma poesia nas costas dela, naquele pedaço de pele nu de um moreno brilhante que roubava a minha atenção enquanto ela, relaxada, dormia. Fiz uma breve inserção no meu léxico e procurei uma caneta para executar meu desejo. Senti imediatamente que dos poros dela brotaríam as letras do meu poema, como as rosas brotam tímidas e belas numa dia de primavera com suas gotas de água da chuva. Senti que, magicamente, a caneta que eu poria agora lentamente nas suas costas ganharia vida e escreveria ali os versos mais bonitos da minha vida. Vi que o contraste do azul da tinta com o moreno das suas costas nuas faria uma estética tão perfeita que eu não mais estaria presente na frente de uma mulher; mas sim de uma obra de arte. Tolo: ela não precisava daquela tinta nem muito menos dos meus versos para ser uma obra de arte. O conjunto dos seus pequenos olhos negros, do seu sorriso tímido que formavam pequenas circunferências em volta da sua boca avermelhada, com seus cabelos ondulados e o seu corpo - na sua totalidade - ultrapassavam o limite da arte. Era uma divindade encarnada, ali para ser apenas apreciada por mim, a inspirar versos capengas. Sensato, joguei minha caneta fora, tomei mais um gole de vinho e me acomodei ao lado dela para experimentar o sono com uma Deusa.