26.4.09

Um

É como se tudo parasse e os medos dos erros anteriores assustassem Santiago. Sua mente foi capaz de num instante enumerar cada pequena falha que cometeu com tantas outras que passaram na sua vida. Mas ela tinha um quê de importância, um ar que transmitia algo além, místico.

Santiago não era muito de acreditar nos misticismos cotidianos. E não acreditava. Racional, colocava o pingo nos is e partia então para um segundo insight, ainda na presença dela, mas sem que ela percebesse no que ele estava pensando enquanto bebia vinho deitado sob a grama e ouvia o chuá do mar.

É como se o amor viciasse. Talvez não o amor em si, mas a sensação particular que o sentimento despertava nele. Um andar cego de mãos dadas, unido com a frieza e a eterna iminência da queda, do fim. Nada nessa vida é para sempre, Santiago sabia disso. Mas o sentimento era tão forte, foi tão forte, que ele precisava sentí-lo novamente.

Mas um sentimento assim não brota do nada, há de precisar de uma série de motivações e misticismos - filosofava Santiago enquanto ela, deitada ao seu lado bebericava mais um gole de vinho e lhe contava histórias da vida. O misticismo disso tudo mora no cérebro que, por algum motivo qualquer, ou sem nenhum motivo, faz com que a voz se torne falha, o coração se torne veloz e a surja um frio específico na barriga enquanto as mãos, coitadas, soam.

Não. Santiago se recusava a acreditar que o instrumento máximo da nossa racionalidade pudesse agir de forma tão pueril. Não com ele. E aí pode perceber as características dela que mais o atraíam. Santiago queria encontrar uma lógica na aparente falta de lógica do seu sentimento. Não quero cometer os mesmos erros porque a personalidade dela bate inteiramente com a minha e sei que posso amá-la, pensou.

Mas seu cerébro não lhe dava descanso e construiu na sua cabeça a imagem de outras que ele julgava tão parecidas, de uma personalidade que ele tanto apreciava, mas mesmo assim ele não teve medo de que, com elas, repetisse o mesmo erro. E aliás repetiu, mostrou-lhe racional seu cérebro. Então, por que não quero cometer os mesmos erros com ela?

Enquanto pensava nisso, ela se virou para ele. "Fazia tempo que eu não via as estrelas". Santiago simplesmente sentiu seus lábios se tocando, o copo dela escorrendo pelo dele, seus pés se entrelaçando juntos e ambos se movimentado com uma sintonia harmoniosa, enquanto o topor do vinho esquentava seus corpos, agora unidos. Uno. E o pensamento de Santiago terminou inconclusivo. Mas com um novo insight.

O amor nos torna um.

6.4.09

Sono

Eu queria escrever uma poesia nas costas dela, naquele pedaço de pele nu de um moreno brilhante que roubava a minha atenção enquanto ela, relaxada, dormia. Fiz uma breve inserção no meu léxico e procurei uma caneta para executar meu desejo. Senti imediatamente que dos poros dela brotaríam as letras do meu poema, como as rosas brotam tímidas e belas numa dia de primavera com suas gotas de água da chuva. Senti que, magicamente, a caneta que eu poria agora lentamente nas suas costas ganharia vida e escreveria ali os versos mais bonitos da minha vida. Vi que o contraste do azul da tinta com o moreno das suas costas nuas faria uma estética tão perfeita que eu não mais estaria presente na frente de uma mulher; mas sim de uma obra de arte. Tolo: ela não precisava daquela tinta nem muito menos dos meus versos para ser uma obra de arte. O conjunto dos seus pequenos olhos negros, do seu sorriso tímido que formavam pequenas circunferências em volta da sua boca avermelhada, com seus cabelos ondulados e o seu corpo - na sua totalidade - ultrapassavam o limite da arte. Era uma divindade encarnada, ali para ser apenas apreciada por mim, a inspirar versos capengas. Sensato, joguei minha caneta fora, tomei mais um gole de vinho e me acomodei ao lado dela para experimentar o sono com uma Deusa.