14.12.06

Terno Azul

Aquele terno azul lhe enchia de calor. Não soubera dizer que diabos o fizera vestir aquilo naquele dia. Achava que talvez um terno azul caísse bem para impressionar aquela menina com quem já há algum tempo vinha ficando e que não sentia tanta segurança quanto a um possível futuro relacionamento, rendendo-lhe nada mais que dolorosos apertos no peito. Mas aquela merda estava apenas lhe matando de calor.

Entrou no bar, falou com alguns conhecidos, escutou um pouco daquele som, tomou algumas latinhas de cerveja e nada dela aparecer. A cada minuto que passava sem ela, sem noticias dela, seu coração apertava um pouco mais e a angústia de um amor mal correspondido crescia dentro dele. Quando isso acontecia os ambientes ficavam quentes demais, era como se o mundo se fechasse aos poucos com ele dentro. As pessoas iam e vinham, tudo girava e a solidão inerente daquele ser crescia numa velocidade espantável. Não agüentou. Ela não vinha mais. Pegou a sua carteira de cigarros e foi para fora daquele bar. Foi para a sarjeta. Sentou-se e acendeu o seu primeiro cigarro de amor solitário.

Ficou lá, sob o efeito da nicotina, numa letargia, numa solidão. Cantarolava baixinho alguma música romântica e pensava nela, quando se deu conta que uma menina o observara. Ela tinha um copo de vinho na mão e um cigarro na boca e de vez em quando jogava um olhar para ele. Um olhar esquisito, algo com um quê de desejo. Ele reparou no corpo da moça. Pernas grossas do jeito que ele gostava, seios fartos, bunda empinada e um belo rosto. Por um momento se viu na cama com ela. Vingar-se-ia do seu amor que lhe deixara ali, apenas com os seus cigarros e com toda aquela dor. Ela lhe parecia inteligente e por um momento acreditou que falaria com ele e, até mesmo, que daria para ele. Pensou em se levantar, trocar uma idéia e tentar garantir a noite. Mas o seu coração falou mais alto. Ficou só ali, observando e vendo-a ir embora, enquanto ele ficava acompanhado dos seus velhos e bons cigarros e dos seus devaneios de amor.

10.12.06

Vicios Imorais

Ligou a antiga vitrola, ainda conservara o costume de ouvir música na velha máquina. Para ele, a música dali saia com uma pureza maior do que nos equipamentos modernos. Escolheu, dentre a sua vasta coleção de LPs, o segundo disco de uma das suas bandas preferidas; Strange Days, de 1967, uma das obras primas do The Doors. Apesar do costume de ouvir música na vitrola e de ser um apreciador do rock dos anos 60 e 70, Júlio era novo. Tinha exatamente 25 anos e 3 meses de idade, entre cigarros, baseados e bebedeiras.

Sentado na sua poltrona, bebericava o seu Whisky e fumava mais uma carteira de cigarro, enquanto ouvia som entorpecente daquelas guitarras e da voz de Jim Morrison. Estava para fechar os olhos, quando a campainha do seu apartamento tocou. Foram dois curtos toques e mais três batidas na porta. Ao ouvir isso, logo entendeu. Era Karla, a sua prostituta.

Ele conhecera Karla havia mais de três anos. Conheceram-se na festa de um amigo de Júlio, que tinha o costume de pagar algumas prostitutas para garantir a diversão e animação da festa. Mal se olharam e entenderam que entre eles havia um tesão inexplicável, invisível. Karla tinha um jeito de andar que excitava Júlio só de vê-la. Júlio tinha aquele charme de intelectual frustrado que molhava a calcinha de Karla toda vez que ela o olhava. Passaram três anos, trepando sem amor, só com um desejo inexplicável, um desejo que vinha e que, depois de satisfeito, ia embora tão rápido que nunca sabiam o que falar nem como se olhar após o ato.


Karla chegara ao apartamento de Júlio com a intenção de foder com ele pela última vez. Não agüentava mais aquela sensação estranha que tinha ao vê-lo, era tanto tesão que lhe tirava do sério. Era um tesão puro, nu, sem nenhum pingo de amor, paixão ou até mesmo de admiração mútua. Era um fogo que crescia ao se olharem e tinha seu clímax no gozo. Os dois sempre gozavam juntos, desde a primeira trepada na casa do amigo de Júlio. Karla nunca, em sua vida de prostituta, tinha gozado tanto e de uma forma tão intensa como gozava com Júlio. Isso a incomodava, por isso juntou as suas economias e decidiu viajar para bem longe daquela cidade provinciana, decidida a nunca mais ver Júlio na sua vida.

O simples movimento de abrir a porta fez incendiar o apartamento. Ela o agarrou e jogou ele na cama, tirando-lhe a camisa. Ele, ofegante, ainda teve tempo de desabotoar a calça, enquanto ela, louca de tesão, abaixava-se para chupar aquele pau que te dava tanto prazer. Chupou com tanta vontade, com tanto tesão, que se não fosse pelo controle mental de Júlio, ele teria lambuzado aquela garganta com o seu sêmen. Depois de chupado, Júlio enlouqueceu. Transformou-se num bicho do mato. Rasgou a blusa de Karla e mamou naqueles seios de forma tal que arrancou gemidos de prazer intenso na prostituta. Desceu e encontrou a vagina, molhada e só a espera do encontro com aquela língua e aqueles lábios já conhecidos. Karla pensou ter experimentado, naquele momento, um pedaço do paraíso; de um paraíso infernal, do paraíso do prazer daqueles vícios imorais que tanto lhes consumiam. Transaram feito bestas, gozaram não menos que cinco vezes naquela noite, com uma força, um vigor, que parecia que iriam explodir de prazer. Depois, cansados, dormiram pela primeira vez, abraçados e feito crianças depois de um dia longo e cheio de travessuras.

Karla acordou mais cedo, olhou para aqueles óculos jogados no chão, aqueles livros na estante e aquele macho nu que lhe dava tanto prazer. Sentiu saudades. Pensou em deixar um bilhete, explicando-lhe o motivo da sua ida, mas, ao invés disso, deixou a sua calcinha com uma frase. "Pelos nossos anos de tesão, de bebedeira, de vícios e de imoralidades, parto para nunca mais voltar, meu amor." Deixou a calcinha no criado-mudo, ao lado da cama. Com os olhos lacrimejando, Karla partiu, para nunca mais voltar e nunca mais sentir o prazer daquelas imoralidades.